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Reputação

A extinção invisível: por que a dependência de terras raras da China é o maior risco geopolítico e industrial do Brasil

Com recursos finitos e uma disputa acirrada entre as superpotências, mineração urbana emerge como peça-chave de soberania econômica. No entanto, país ainda enfrenta hiato tecnológico de uma década para o refino final

Publicado em 18 de agosto de 2026

A extinção invisível: por que a dependência de terras raras da China é o maior risco geopolítico e industrial do Brasil

Na corrida global pela transição energética e pela supremacia tecnológica, o verdadeiro poder não se mede mais apenas em barris de petróleo, mas em miligramas de minerais invisíveis aos olhos do consumidor comum. Elementos como disprósio, neodímio e paládio, que são fundamentais para os ímãs de motores de carros elétricos, baterias de smartphones e componentes de transição energética, tornaram-se o epicentro de uma guerra comercial silenciosa entre a China e os Estados Unidos. Nesse tabuleiro geopolítico, o Brasil, dono da segunda maior reserva de terras raras do planeta, enfrenta um paradoxo: a riqueza está no subsolo, mas a dependência industrial do mercado asiático continua quase absoluta.

A razão está no fluxo linear e na falta de circularidade da economia global. À medida que eletrônicos são descartados incorretamente em aterros, toneladas de metais nobres e finitos são perdidos para sempre. É o que especialistas chamam de "extinção invisível" de recursos minerais. Para quebrar esse ciclo de dependência externa e fortalecer a economia circular, a mineração urbana surge não para substituir, mas para complementar de forma vital a mineração tradicional, transformando o passivo do descarte em uma fonte nacional de matérias-primas estratégicas.

O Nó Geopolítico e a Vulnerabilidade Brasileira

A China domina hoje a cadeia de extração e, principalmente, de processamento e refino de terras raras. Para o Heber Bobeck, consultor financeiro e sócio da Mhydas Planejamento Financeiro, o cenário atual desenha um risco severo de abastecimento e custos para a indústria nacional de alta tecnologia.

"A dependência do Brasil em relação à China no segmento de terras raras e metais críticos vai muito além de uma questão comercial, trata-se de vulnerabilidade de soberania industrial. A exposição cambial, as barreiras de importação e o risco real de desabastecimento em momentos de fricção geopolítica mostram que o Brasil não pode continuar dependendo do fornecimento externo para sustentar sua transição tecnológica. Mitigar esse risco exige o desenvolvimento de cadeias locais de suprimento. É aqui que a reciclagem de frações complexas deixa de ser uma agenda puramente ecológica para se tornar uma estratégia de sobrevivência econômica e segurança de estoque para as grandes indústrias", frisa Bobeck.

Mineração Urbana como Defesa e o Próximo Passo: Fundição Própria

É justamente nesse gargalo de suprimentos que a mineração urbana ganha musculatura industrial. Na região metropolitana de Curitiba (PR), a Reminera, braço de mineração urbana da Metal Carbon Hub, acaba de inaugurar uma planta de R$ 50 milhões e 18 mil m² focado na descaracterização e triagem fina de sucatas complexas, como resíduos automotivos e eletroeletrônicos.

Com capacidade para processar até 5 mil toneladas de materiais por mês, o hub utiliza um supertriturador (shredder) inédito no estado para pulverizar estruturas complexas e realizar a separação magnética precisa. Mas os planos do grupo vão além da triagem. Para aumentar a independência da cadeia, o próximo grande passo estratégico já está desenhado: a verticalização por meio de uma estrutura de fundição própria.

"Os metais que movem o mundo tecnológico são finitos. O disprósio e o ouro não existem em abundância ilimitada. Para extrair um único grama de ouro, por exemplo, precisamos processar dezenas de celulares antigos, uma tecnologia cara que estamos trazendo ao mercado nacional. Hoje, o Brasil perde fortunas porque esses elementos vão parar em aterros e não retornam para a cadeia produtiva. Aqui, atuamos na separação e concentração industrial dessas frações. Nossa prioridade agora é consolidar essa operação no Paraná e ampliar o volume processado. O próximo passo lógico é a nossa fundição própria, um plano de verticalização que nos permitirá fundir e processar esses materiais recuperados localmente, agregando ainda mais valor e retendo esses ativos estratégicos dentro do mercado nacional", explica o CEO da Reminera, Gabriel Tadeu.

O Hiato Tecnológico de 10 Anos e a Solução Jurídica (SRA)

Apesar do avanço agressivo na separação mecânica e na concentração de frações ricas realizado pela mineração urbana nacional, o refino químico final para isolar elementos puríssimos de terras raras (como o neodímio ou o disprósio) ainda exige rotas metalúrgicas complexas que encontram forte barreira tecnológica no Ocidente. Analistas estimam que o Brasil ainda está a cerca de 10 anos de distância de possuir plantas de refino químico de altíssima pureza em escala comercial para esses elementos específicos.

No entanto, enquanto a tecnologia final matura, a mineração urbana resolve um problema imediato e duplo para as corporações: a eficiência econômica e o compliance ambiental exigido por legislações como a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e o Planares.

Para atender a essa demanda que une a busca por eficiência e o ESG , a planta opera sob o conceito de aterro zero (Zero Waste) e é monitorada pelo SRA (Sistema de Rastreamento Ambiental), um software proprietário 100% online. A ferramenta permite que as indústrias parceiras auditem todo o processo, desde a origem do descarte até a destinação final , fornecendo evidências concretas de conformidade legal e mitigando completamente os riscos jurídicos e ambientais.

A transição para uma economia de baixo carbono exigirá mais minerais do que a mineração tradicional consegue extrair de forma sustentável. Sem a mineração urbana para fechar o circuito de metais nobres e terras raras, a indústria do futuro simplesmente ficará sem matéria-prima e o Brasil, vulnerável à soberania estrangeira.